Algumas reflexões sobre Oud no Vietnã

Quando quis viajar para o Vietnã, a primeira coisa que veio em minha mente foi oud, essa madeira resinosa tão preciosa que nasce espontaneamente nessa parte do mundo. Oud é um termo árabe que significa “madeira”, mas pelo seu enorme uso e apreço no Oriente Médio, ficou conhecido por designar a madeira resinosa da árvore de gênero Aquilaria ou, menos comumente, Gyrinops. Essa enorme árvore ao se machucar – seja através de bicadas de pássaros, galhos quebrando ou outros ferimentos – se torna vulnerável a infecções. Para combatê-las, a planta naturalmente produz uma resina no seu cerne. Algumas pessoas acham que essa formação tem um caráter miraculoso devido às circunstâncias que cercam seu desenvolvimento na natureza – e talvez seja mesmo. É um processo que acontece quando a árvore está mais velha e é um processo que dura muitos anos (há em coleções mundo afora ouds seculares). É a madeira nessas condições que chamamos de oud, agarwood, aloeswood ou, em vietnamita, trầm hương. Há muitas variedades de Aquilaria, as mais famosas sendo Aquilaria sinensis, Aquilaria malaccensis e Aquilaria crassna – estas, contudo, representam apenas uma mínima fração dessa diversidade biólogica. Crescem espontaneamente em países como Camboja, Indonésia, Myanmar, Tailândia, Índia, Malásia, China e... Vietnã, este último famoso pela mais abundância e qualidade. Isso porque cada variedade é única. Claro, é possível falar isso sobre toda planta, mas o oud é um caso particular. Quimicamente falando, pode ter até 150 compostos aromáticos e o terroir o influencia intimamente. De modo geral, amplas categorias de aromas são atribuídas às variações regionais: o da Índia é conhecido por ser animálico, o do Camboja frutado e o da Tailândia doce. Há diferenças tão acentuadas de um oud para outro que, por vezes, é como se estivéssemos cheirando plantas distintas. Embora tenha adquirido uma grande notoriedade recentemente no mundo ocidentalizado, para as grandes casas de fragrâncias, oud é entendido como uma categoria de aroma. A Givaudan e a Firmenich, por exemplo, produzem aromáticos sintéticos como Black Agar Givco e Oud Synthetic 10760 E., que retratam um perfil das nuances do oud natural. Quando acrescentamos o processo de destilação para produção de óleos essenciais essas nuances são complexificadas a um grau quase infinito. O tipo de oud utilizado, a maneira de destilar, os equipamentos, a água, a temperatura, o tempo... qualquer variável altera a criação, e essas experiências podem resultar em óleos singulares. Segundo o célebre Ensar, é possível perceber mais notas em certos óleos de oud do que em um perfume com vinte ingredientes. 

Bem, voltando ao Vietnã, ao planejar o roteiro da viagem, selecionei alguns produtores para visitar no centro do país – atualmente, praticamente não existem mais ouds selvagens como o que mencionei no início do texto; cultiva-se (ambos os sistemas podem ter problemas ambientais: de um lado, a derrubada de árvores para descoberta da madeira resinosa, de outro, enormes monoculturas que erodem o solo). Eu sabia que o oud é utilizado historicamente no Vietnã, e que é largamente cultivado por lá, porém não imaginava que sentiria o cheiro ao caminhar pelas ruas ou durante o café da manhã do hotel. Há altares em todos os locais, como acontece também no Camboja e na Tailândia: no hall dos hotéis, nas lojas, nos restaurantes... e neles há sempre oferendas, dentre as quais, frutas frescas e incenso.



 

Há mesmo espaços destinados a se colocar incensos nas ruas.
Mesmo quando esses incensários não existem, as pessoas encontram brechas para acendê-los. Quando isso é feito próximo à água, é com o intuito de comunica-se com os espíritos. No dia do meu aniversário, 25 de setembro, logo ao sair do hotel em Hanói, eu e minha mãe reparamos em um painel luminoso na fachada de uma loja. Olhamos para o nome, e lá estava: Trầm Hương. Quando entrei, foi algo de maravilhoso e extraordinário. A loja se chama Hảo Hảo Trầm Hương e parece uma joalheria. Logo ao abrir a porta, me deparei com uma belíssima escultura de madeira de Lady Buddha, muito cultuada na espiritualidade vietnamita. A madeira era a própria, Aquilaria. Tradicionalmente, quando o oud era muito precioso, não se usava para queimar e sim esculpir, de modo que vivesse para sempre.
Esses usos costumam variar de acordo com a qualidade. Os mais preciosos são reservados para esculturas, em seguida para lascas para queimar, incensos em variados formatos e, então, óleos artesanais – há, é claro, quem subverta essas lógicas, como o Ensar, que destila apenas qualidades ímpares. Nessa loja, onde fui atendida por uma mulher gentil e atenciosa, há seções dedicadas a diferentes produtos. Uma parte apenas com pulseiras – acredita-se que além de adorno, elas funcionam como amuleto de proteção e prosperidade (inclusive, em outro local, me sugeriram guardar uma pequena lasca na carteira) –; uma apenas com incensos, seja em vareta, em cone ou pó; outra apenas com as lascas, armazenadas por local de origem; também há uma parte reservada a óleos e, surpreendentemente, para bebidas – sim, é comum encontrar bebidas infusionadas ou maceradas com oud no Vietnã e em outra loja me indicaram colocar uma lasca em vinho branco. Vale dizer que da árvore de onde vem o oud muito é utilizado. Por exemplo, das folhas se faz infusões para beber, que costumam ser vendidas em lojas de chás ou medicinas, e não em lojas especializadas em trầm hương, pois para o uso das folhas a planta não precisa ter desenvolvido a resina preciosa, de modo que não se trata de oud.



A atendente me ajudou a experimentar uma variedade tipos de oud, de diferentes idades e provenientes de diferentes lugares. Ela mesma tinha um favorito, que foi um dos que mais amei e acabei comprando, a variedade Nha Trang – a mais famosa região de agarwood vietnamita –, de aroma sutil e adocicado. Ela também indicou que cada tipo, com sua fragrância particular, é indicado para um desequilíbrio, como: sono, falta de concentração, dor de cabeça, mas também para afastar espíritos malignos e purificar o ambiente.




Talvez uma pergunta que rodeie o que se diz por aí é se há cheiros extremamente fortes, que lembram celeiro e esterco em alguns ouds. Pela minha experiência, que é bem pouca, há sim. Mesmo em incenso ou lasca, isto é, sem a etapa de fermentação que ocorre em algumas destilações, há variedades com esse aspecto aromático animálico, que remete à curral e esterco (de cavalo, especialmente), e que são extremamente interessantes não apenas pela sua complexidade, mas por provocarem e deslocarem a maneira como compreendemos e nos relacionamos com os cheiros. Certamente, de onde eu falo, São Paulo, Brasil, essas características aromáticas seriam entendidas como um fedor, um cheiro repugnante, ou ao menos, que se deseja evitar. Mas, quando se sente esse aroma vindo de um incensário, alguma coisa muda. É como se abrisse uma janela de observação e admiração, em que os juízos são, por um momento, suspensos em prol de uma percepção curiosa. O bom e o ruim, sabemos, são categorias moldadas histórica e culturalmente, e qual estamos tão imersos que permitir-se ser atravessado pelo diferente é uma experiência tão difícil quanto fascinante. O mesmo pode acontecer quando essa madeira resinosa, que é lembrada por muitos pelo aspecto citado, emite uma fumaça frutada, quase cítrica, ou que remete à brisa marítima. Para além das diferentes qualidades que possam existir – e que podemos tratar em outro texto –, permitir-se estar em estado de disponibilidade possibilita surpresas deslumbrantes, um encantamento e intimidade com a natureza e o trabalho dos seres humanos em consonância com ela.

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