Perfumaria, Alimentação e Medicina em um livro indiano do século XV
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| British Library IO Islamic 149, f. 124v. |
Outro dia, lendo uma reportagem sobre Kannauj, conhecida como a capital do perfume na Índia, me peguei imersa numa nuvem de sândalo e rosas, e foi esse rastro perfumado que me guiou a um tesouro do século XV: o Ni'matnama, ou "O Livro dos Prazeres". Na Índia pré-moderna (e em lugares como Kannauj, ainda hoje). O manuscrito do Ni'matnama, salvaguardado na British Library sob a cota IO Islamic 149, é um portal para um mundo onde as fronteiras que hoje traçamos entre cozinha, medicina e perfumaria simplesmente se dissolvem em vapor aromático.
Essa tradição é antiga e profundamente enraizada. Textos como o Brihatsamhita, do século VI, já dedicavam capítulos inteiros à perfumaria (gandhayukti), mostrando que o Ni'matnama pertence a uma longa linhagem de obras que viam o perfume como essencial para o bem-viver. O livro foi iniciado para o sultão de Mandu, Ghiyath al-Din Khalji (que reinou de 1469 a 1500), e mais tarde complementado por seu filho e sucessor, Nasir al-Din Shah (r. 1500-1510). Ghiyath era um governante excêntrico, um verdadeiro bon vivant. Ao assumir o trono, declarou que se dedicaria a "procurar o prazer e o deleite". Sua capital era conhecida como Shadiyabad, a "Cidade da Alegria", e seu palácio abrigava 15.000 mulheres, que incluíam eruditas, musicistas e artesãs, protegidas por uma guarda pessoal de outras 500 mulheres turcas e abissínias vestidas com uniformes e armadas com arcos e armas de fogo.
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| British Library IO Islamic 149, f. 51r |
O livro contém instruções para iguarias, remédios, cosméticos, perfumes e afrodisíacos. No Ni'matnama, o aroma é o princípio que conecta todas as coisas. Dentre os ingredientes citados encontramos resinas, néctar, pólen e outros um tanto desconhecidos nos dias de hoje, como "mana de bambu e a concha perfumada esmagada de um molusco de água doce". A cozinha é uma espécie de laboratório-ateliê, onde ingredientes são escolhidos tanto pelo sabor quanto pela fragrância e por suas propriedades medicinais. Encontramos instruções para samosas, mas a receita não busca apenas o paladar: a massa frita deve ser colocada "entre rosas para que adquira um cheiro doce". Aqui, a rosa empresta sua fragrância (perfumaria), compõe o prato (gastronomia) e oferece suas propriedades calmantes (medicina). Da mesma forma, um prato de arroz doce (kheer) é finalizado não com uma especiaria qualquer, mas com o perfume inebriante das flores, através da infusão do leite de búfala com as pétalas.
Essa visão se estende ao corpo, tratado como um jardim a ser cultivado. O livro oferece tônicos para melhorar a saúde e a virilidade. Receitas afrodisíacas listam ingredientes como aspargos, carne de perdiz e testículos de carneiro. Comer, curar e amar são verbos que se conjugam no mesmo caldeirão, refletindo uma cultura onde o aroma e a sensualidade eram inseparáveis. A fronteira entre o prato, a bebida e a poção, a nutrição e o prazer diluídas (em líquido aromático).
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| British Library IO Islamic 149, f. 168r. |
Se a comida era para se cheirar, os perfumes eram para se comer. O Ni'matnama ecoa as tradições da perfumaria ao detalhar o preparo de óleos perfumados e a destilação de cânfora e água de rosas, arte que não se limitava a frascos. O perfume era para ser ingerido, incorporado. No preparo do pāan (a noz de bétele para mascar), por exemplo, as folhas são esfregadas com cânfora e água de rosas, a noz de areca fervida em suco de sândalo e a pasta final enriquecida com almíscar. O pāan tornava-se uma pequena farmácia portátil: um digestivo, que era também perfume para o hálito.
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| British Library IO Islamic 149, f. 118v. |
Na "Cidade da Alegria" de Ghiyath Shahi, o prazer era a um só tempo bem-estar, ciência e arte, e o perfume unia todas as coisas. O Ni'matnama é um convite a repensar as próprias caixinhas, as separações, e dar espaço para os saberes serem mais permeáveis.




Texto muito interessante e enriquecedor. Incrível a conexão das pessoas, desde sempre, com os aromas.
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